sexta-feira, julho 24, 2026

Quando o Erro Vira Rotina - Relatório da FAB acidente Voepass.

 

Barreira da Normalização da Desviância

Relatório da FAB acidente Voepass. 

 

Neste artigo descrevo os conceitos de Consciência Situacional e a barreira crítica da normalização do desvio, com referências a autores e casos emblemáticos.

 

Notícia

FAB aponta negligência da Anac e diz que Voepass normalizou desvios.

A investigação apontou 19 fatores que influenciaram a queda do avião, sendo 15 que contribuíram diretamente para o acidente. Os demais foram classificados como de contribuição indeterminada.

 

NORMALIZAÇÃO DO DESVIO. Os investigadores concluíram que um dos sistemas de degelo, responsável por inflar as borrachas nas asas do avião para quebrar o gelo, apresentava falhas recorrentes. Essas falhas foram registradas em voos imediatamente anteriores ao do acidente, mas não foram relatadas no diário de bordo por nenhuma das tripulações. “Houve normalização do desvio”, afirmou o oficial da FAB encarregado da investigação, tenente-coronel aviador Paulo Mendes Fróes. (Estadão)


Introdução

A consciência situacional (CS) é a habilidade de perceber, compreender e antecipar o que está acontecendo ao redor, especialmente em ambientes de risco ou alta complexidade. No entanto, essa capacidade pode ser comprometida por barreiras cognitivas, culturais e organizacionais. Uma das mais insidiosas é a normalização do desvio, trata-se de um fenômeno que transforma práticas perigosas em rotinas aceitáveis, até que o desastre aconteça.

 

O Que é Normalização da Desviância?

O termo foi cunhado pela socióloga Diane Vaughan ao investigar o desastre do ônibus espacial Challenger, em 1986. Vaughan definiu a normalização do desvio como o processo pelo qual comportamentos inseguros ou irregulares passam a ser considerados normais, especialmente quando não resultam em consequências imediatas.

A normalização do desvio ocorre quando os atores em um ambiente organizacional, como uma corporação ou agência governamental, passam a definir atos desviantes como normais e aceitáveis ​​porque eles se encaixam e estão em conformidade com as normas culturais da organização na qual trabalham. Mesmo que estas ações possam violar algum padrão legal ou social externo e serem rotuladas como criminosas ou desviantes por pessoas de fora da organização, os infratores organizacionais não veem como erradas porque estão em conformidade com os mandatos culturais que existem dentro da cultura e do ambiente do grupo de trabalho onde desempenham suas funções ocupacionais. (Sk.sagepub.com)

 

“As pessoas dentro de uma organização tornam-se tão insensíveis a uma prática irregular que ela deixa de parecer errada.” Diane Vaughan

 

Esse fenômeno ocorre gradualmente, à medida que desvios são repetidos e tolerados, criando uma cultura onde o risco é banalizado.

 

Autores que estudam a Vigilância e o Desvio

Além de Vaughan, outros pensadores contribuíram para entender como a vigilância e o controle organizacional podem falhar:

·       Michel Foucault: Em sua obra sobre poder e vigilância, Foucault descreve como instituições normalizam comportamentos por meio da observação constante e da sanção disciplinar.

·       Fernanda Bruno: Pesquisadora brasileira que analisa as tecnopolíticas da vigilância, mostrando como práticas de controle podem ser naturalizadas em ambientes digitais e sociais.

 

Casos Reais de Normalização da Desviância

1. Desastre do Ônibus Espacial Challenger (1986)

Apesar de alertas técnicos sobre falhas nos anéis de vedação dos foguetes, a NASA continuou os lançamentos. A repetição de decisões arriscadas sem consequências imediatas levou à aceitação do risco como parte da rotina. O resultado: a explosão do Challenger e a morte de sete astronautas.

Vaughan desenvolveu o conceito de normalização da desviância em seu estudo histórico, The Challenger Launch Decision: Risky Technology, Culture, and Deviance at NASA , em 1996.

 

2. Acidente Nuclear de Chernobyl (1986)

Práticas inseguras e negligência de protocolos tornaram-se comuns na usina soviética. A cultura organizacional tolerava desvios como parte do funcionamento normal. Quando múltiplos fatores se alinharam, o resultado foi o maior desastre nuclear da história.

 

Como o Especialista em Consciência Situacional pode evitar a Normalização do Desvio 

O especialista em CS desempenha papel crucial na prevenção desse fenômeno. Algumas estratégias incluem:

·       Monitoramento contínuo de padrões operacionais: Identificar desvios antes que se tornem rotina.

·       Cultura de questionamento: Incentivar que operadores e equipes desafiem práticas que parecem “normais demais”.

·       Debriefings e auditorias regulares: Revisar decisões e ações com foco em identificar desvios sutis.

·       Treinamento em ética operacional: Reforçar que segurança não é negociável, mesmo sob pressão por resultados.

·       Criação de ambientes seguros para denúncia: Garantir que colaboradores possam reportar desvios sem medo de retaliação.

 

Conclusão

A teoria da normatização do desvio pode ser aplicada a qualquer atividade humana, com por exemplo: levar canetas e material do escritório para uso pessoal. 

A normalização do desvio é uma barreira silenciosa e perigosa à consciência situacional. Quando práticas inseguras são repetidas e toleradas, o risco deixa de ser percebido — até que seja tarde demais. O especialista em CS deve ser o guardião da vigilância ativa, da cultura ética e da prevenção. Reconhecer e combater esse fenômeno é essencial para evitar tragédias e preservar vidas.

 

Nota: A FAB possui os melhores especialistas do Brasil em termos de Consciência Situacional voltada para a Aviação. (Aviação não é a minha especialidade.) 

 

Paulo Sergio de Camargo

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2 comentários:

Anônimo disse...

Em épocas de tanto desconforto com alertas, punições e afins, seria importante entender uma reprovação a atitude, gesto, fala, etc como algo educativo e não vingativo ou interesseiro, pessoal.

Anônimo disse...

Gostei de material, mestre Camargo.
A Consciência Situacional, que deve ser parte gestora da execução de qualquer projeto, não pode ser comprometida pela negligência humana a interromper o processo de atenção na vigilância permanente do funcionamento da estrutura criada para atender ao objetivo final da obra.
N SSE sentido a normalização do desvio é a causa de tragédias como as do Legacy e a de Chernobyl.