Da Aviação
para o Ambiente Corporativo.
Amy E. Herman: Inteligência Visual, obras de
arte e lições para prevenir acidentes.
O
relatório de fatores contribuintes em grandes acidentes aeronáuticos divulgado
sobre a tragédia com a Voepass oferece lições valiosas que ultrapassam os
limites da aviação.
Embora
o contexto operacional seja específico, as falhas de comportamento humano,
processos e tomadas de decisão que culminam em um desastre corporativo ou
operacional são universais.
A Consciência Situacional (CS) — definida como a capacidade de perceber o ambiente, compreender o que o estado das coisas significa no presente e prever o que pode acontecer no futuro próximo — é o pilar fundamental para evitar perdas humanas e materiais em qualquer organização.
Abaixo,
destaco um dos fatores citado nas investigações do acidente que pode e deve ser
aplicado por empresas de qualquer setor (segurança, transporte etc.). No final
do artigo estão os 15 fatores citados pela FAB.
11.
Percepção: prejuízo na capacidade dos tripulantes de processar estímulos
internos e externos e projetar as consequências. (Relatório da FAB)
Percepção (Perceber o ambiente)
No contexto geral: É a habilidade dos colaboradores e gestores de captar os estímulos certos do ambiente (um ruído atípico em uma máquina, um comportamento inadequado de um cliente, um indicador operacional desalinhado). Sem percepção precisa, a tomada de decisão fica completamente comprometida. A empresa precisa treinar colaboradores para avaliar riscos em tempo real e antecipar impactos potenciais.
Percepção é uma habilidade que pode ser treinada.
Amy Herman
Utiliza
obras de arte como ferramenta para treinar especialistas em observação,
interpretação e tomada de decisão sob pressão. Seu método é aplicado em
instituições como o FBI, o Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) e os
Navy SEALs, ajudando profissionais a reconhecer detalhes, reduzir vieses e
melhorar a comunicação em cenários de risco. O treinamento reforça que a
percepção visual aguçada é essencial para segurança, liderança e inovação.
Como funciona o treinamento
·
Base no
olhar crítico:
participantes analisam obras de arte para aprender a observar além do óbvio.
·
Aplicação
prática: exercícios são conectados a
situações reais de segurança, medicina, inteligência e liderança.
·
Resultados: melhora da capacidade de identificar sinais
sutis, antecipar problemas e comunicar achados com clareza.
Instituições que recebem o treinamento
·
FBI (Federal
Bureau of Investigation): agentes são
treinados para aprimorar percepção em investigações e operações de campo.
·
Departamento
de Segurança Interna (DHS): equipes de
fronteira e transporte aplicam técnicas para detectar riscos e ameaças.
·
Navy SEALs: militares utilizam o método para aumentar
consciência situacional em missões de alta complexidade.
Livro Amy E. Herman:
Inteligência Visual: Aprenda a arte da
percepção e transforme sua vida.
Ed. Zahar, 2016.
Conclusão
A
Importância Estratégica do Treinamento em Consciência Situacional.
Proteger
a vida dos colaboradores e o patrimônio da empresa não é fruto do acaso, mas de
uma postura treinável. Capacitar equipes em Consciência Situacional permite que
funcionários em todos os níveis desenvolvam uma postura proativa em relação ao
risco: percebendo perigos antes que se tornem incidentes, tomando decisões
assertivas sob estresse e mantendo uma comunicação clara.
Instituições
e Consultorias que Oferecem Treinamentos no Brasil
Algumas
não têm módulos específicos de Consciência Situacional, mas oferecem formações
em Segurança do Trabalho que desenvolvem exatamente essas competências:
percepção de riscos, tomada de decisão em ambientes críticos e prevenção de
acidentes.
Para
implementar iniciativas de Consciência Situacional, Segurança Comportamental e
Gestão de Riscos (como o CRM - Corporate/Crew Resource Management
adaptado ao ambiente empresarial), as empresas podem recorrer a diversas
entidades especializadas:
· Serviço
Social da Indústria (SESI): Referência nacional em programas de
Segurança e Saúde no Trabalho (SST), oferecendo capacitações integradas para
promover a cultura de prevenção nas indústrias.
· SENAI e
SENAC:
Instituições do Sistema S que oferecem treinamentos focados em segurança
operacional, gerenciamento de riscos e rotinas de trabalho seguras.
· CENIPA
(Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos): Promove
capacitações em CRM (Corporate Resource Management), cujos conceitos de
gestão de risco e recursos humanos são amplamente adaptados por grandes
indústrias e pelo setor de saúde (hospitais e centros cirúrgicos).
· Empresas e
Consultorias Especializadas em SST e Gestão de Crises: Diversas
consultorias privadas de engenharia de segurança e inteligência corporativa
oferecem módulos específicos de Segurança Comportamental, Treinamento de
Proteção Patrimonial e Gestão do Fator Humano em Operações de Risco.
Os 15
principais fatores contribuintes do acidente Voepass segundo FAB. (Fonte Estadão)
1.
Capacitação e treinamento: embora
treinada, a tripulação não reconheceu a severidade da condição nem respondeu
adequadamente a alertas
2.
Aplicação de comandos: a ação de
“cabrar” (puxar o nariz do avião para cima) durante a perda de controle
aumentou o ângulo de ataque, agravando a situação
3.
Desatenção: conversas sobre assuntos
pessoais durante o voo desviaram o foco técnico da operação
4.
Atitude: a decisão de seguir com o voo
mesmo sabendo da falha no sistema de degelo (airframe de-icing) sem
adotar medidas de mitigação
5.
Condições meteorológicas: o ambiente
de formação de gelo severo criou um cenário desfavorável à segurança
6.
Coordenação de cabine: falha na
cooperação entre os pilotos para gerenciar o voo em ambiente de risco
7.
Cultura de grupo:
complacência dos pilotos da empresa diante da alta repetitividade de alarmes
nas aeronaves, reduzindo a vigilância
8.
Cultura organizacional: informalidade
nas interações e baixa adesão a princípios de segurança
9.
Julgamento de pilotagem: avaliação
inadequada dos parâmetros necessários para uma operação segura
10.
Manutenção: a ausência de registros de panes
no diário de bordo impediu que a manutenção corrigisse falhas críticas
11.
Percepção: prejuízo na capacidade dos
tripulantes de processar estímulos internos e externos e projetar as
consequências
12.
Planejamento de voo: falha ao
não considerar todas as restrições da aeronave, permitindo o voo abaixo dos
níveis mínimos de segurança
13.
Processo decisório: dificuldade
em analisar e escolher alternativas seguras durante a operação
14.
Processos organizacionais:
subaproveitamento dos dados de monitoramento de voo e falta de assessoria
técnica em tempo real aos pilotos
15.
Supervisão gerencial e regulatória: falta de
supervisão sobre práticas informais na empresa e a incapacidade da Anac de
transformar auditorias em ações estratégicas eficazes para mitigar riscos
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