sábado, julho 25, 2026

Amy E. Herman: Inteligência Visual, obras de arte e lições para prevenir acidentes. Voepass 02.

 

Da Aviação para o Ambiente Corporativo. 

 Amy E. Herman: Inteligência Visual, obras de arte e lições para prevenir acidentes.

 

 

O relatório de fatores contribuintes em grandes acidentes aeronáuticos divulgado sobre a tragédia com a Voepass oferece lições valiosas que ultrapassam os limites da aviação.

Embora o contexto operacional seja específico, as falhas de comportamento humano, processos e tomadas de decisão que culminam em um desastre corporativo ou operacional são universais.

 

A Consciência Situacional (CS) — definida como a capacidade de perceber o ambiente, compreender o que o estado das coisas significa no presente e prever o que pode acontecer no futuro próximo — é o pilar fundamental para evitar perdas humanas e materiais em qualquer organização. 

Abaixo, destaco um dos fatores citado nas investigações do acidente que pode e deve ser aplicado por empresas de qualquer setor (segurança, transporte etc.). No final do artigo estão os 15 fatores citados pela FAB. 

 

11. Percepção: prejuízo na capacidade dos tripulantes de processar estímulos internos e externos e projetar as consequências. (Relatório da FAB)

 

Percepção (Perceber o ambiente)

No contexto geral: É a habilidade dos colaboradores e gestores de captar os estímulos certos do ambiente (um ruído atípico em uma máquina, um comportamento inadequado de um cliente, um indicador operacional desalinhado). Sem percepção precisa, a tomada de decisão fica completamente comprometida. A empresa precisa treinar colaboradores para avaliar riscos em tempo real e antecipar impactos potenciais. 

Percepção é uma habilidade que pode ser treinada.


Amy Herman

Utiliza obras de arte como ferramenta para treinar especialistas em observação, interpretação e tomada de decisão sob pressão. Seu método é aplicado em instituições como o FBI, o Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) e os Navy SEALs, ajudando profissionais a reconhecer detalhes, reduzir vieses e melhorar a comunicação em cenários de risco. O treinamento reforça que a percepção visual aguçada é essencial para segurança, liderança e inovação.

 

Como funciona o treinamento

·       Base no olhar crítico: participantes analisam obras de arte para aprender a observar além do óbvio.

·       Aplicação prática: exercícios são conectados a situações reais de segurança, medicina, inteligência e liderança.

·       Resultados: melhora da capacidade de identificar sinais sutis, antecipar problemas e comunicar achados com clareza.

 

Instituições que recebem o treinamento

·       FBI (Federal Bureau of Investigation): agentes são treinados para aprimorar percepção em investigações e operações de campo.

·       Departamento de Segurança Interna (DHS): equipes de fronteira e transporte aplicam técnicas para detectar riscos e ameaças.

·       Navy SEALs: militares utilizam o método para aumentar consciência situacional em missões de alta complexidade.

 

Livro Amy E. Herman:

Inteligência Visual: Aprenda a arte da percepção e transforme sua vida. Ed. Zahar, 2016.

 

 

Conclusão

A Importância Estratégica do Treinamento em Consciência Situacional. 

Proteger a vida dos colaboradores e o patrimônio da empresa não é fruto do acaso, mas de uma postura treinável. Capacitar equipes em Consciência Situacional permite que funcionários em todos os níveis desenvolvam uma postura proativa em relação ao risco: percebendo perigos antes que se tornem incidentes, tomando decisões assertivas sob estresse e mantendo uma comunicação clara.

 

 

Instituições e Consultorias que Oferecem Treinamentos no Brasil

Algumas não têm módulos específicos de Consciência Situacional, mas oferecem formações em Segurança do Trabalho que desenvolvem exatamente essas competências: percepção de riscos, tomada de decisão em ambientes críticos e prevenção de acidentes.

Para implementar iniciativas de Consciência Situacional, Segurança Comportamental e Gestão de Riscos (como o CRM - Corporate/Crew Resource Management adaptado ao ambiente empresarial), as empresas podem recorrer a diversas entidades especializadas:

·       Serviço Social da Indústria (SESI): Referência nacional em programas de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), oferecendo capacitações integradas para promover a cultura de prevenção nas indústrias.

·       SENAI e SENAC: Instituições do Sistema S que oferecem treinamentos focados em segurança operacional, gerenciamento de riscos e rotinas de trabalho seguras.

·       CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos): Promove capacitações em CRM (Corporate Resource Management), cujos conceitos de gestão de risco e recursos humanos são amplamente adaptados por grandes indústrias e pelo setor de saúde (hospitais e centros cirúrgicos).

·       Empresas e Consultorias Especializadas em SST e Gestão de Crises: Diversas consultorias privadas de engenharia de segurança e inteligência corporativa oferecem módulos específicos de Segurança Comportamental, Treinamento de Proteção Patrimonial e Gestão do Fator Humano em Operações de Risco.

 Investir nesse tipo de capacitação transforma a cultura da empresa, substituindo a postura reativa (responder ao dano) por uma mentalidade preventiva de alta performance.

  

Os 15 principais fatores contribuintes do acidente Voepass segundo FAB. (Fonte Estadão) 

1.       Capacitação e treinamento: embora treinada, a tripulação não reconheceu a severidade da condição nem respondeu adequadamente a alertas

2.       Aplicação de comandos: a ação de “cabrar” (puxar o nariz do avião para cima) durante a perda de controle aumentou o ângulo de ataque, agravando a situação

3.       Desatenção: conversas sobre assuntos pessoais durante o voo desviaram o foco técnico da operação

4.       Atitude: a decisão de seguir com o voo mesmo sabendo da falha no sistema de degelo (airframe de-icing) sem adotar medidas de mitigação

5.       Condições meteorológicas: o ambiente de formação de gelo severo criou um cenário desfavorável à segurança

6.       Coordenação de cabine: falha na cooperação entre os pilotos para gerenciar o voo em ambiente de risco

7.       Cultura de grupo: complacência dos pilotos da empresa diante da alta repetitividade de alarmes nas aeronaves, reduzindo a vigilância

8.       Cultura organizacional: informalidade nas interações e baixa adesão a princípios de segurança

9.       Julgamento de pilotagem: avaliação inadequada dos parâmetros necessários para uma operação segura

10.    Manutenção: a ausência de registros de panes no diário de bordo impediu que a manutenção corrigisse falhas críticas

11.    Percepção: prejuízo na capacidade dos tripulantes de processar estímulos internos e externos e projetar as consequências

12.    Planejamento de voo: falha ao não considerar todas as restrições da aeronave, permitindo o voo abaixo dos níveis mínimos de segurança

13.    Processo decisório: dificuldade em analisar e escolher alternativas seguras durante a operação

14.    Processos organizacionais: subaproveitamento dos dados de monitoramento de voo e falta de assessoria técnica em tempo real aos pilotos

15.    Supervisão gerencial e regulatória: falta de supervisão sobre práticas informais na empresa e a incapacidade da Anac de transformar auditorias em ações estratégicas eficazes para mitigar riscos

 

 

 

Paulo Sergio de Camargo

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