A doce
ilusão da vontade
Quando nos
levantamos da mesa, vamos até a geladeira e nos servimos de um copo de água,
temos a certeza de que esse comportamento complexo teve sua origem em nossa
vontade. Em outras palavras, acreditamos que tudo se iniciou com nossa vontade
consciente de tomar água.
Não há
dúvida de que a mente humana é capaz de imaginar uma situação no futuro (a água
prazerosamente descendo pela garganta), avaliar se essa situação é
recompensadora (sim, tenho sede) ou não (que preguiça de ir até a geladeira) e
tomar a decisão de agir para tornar real a situação que imaginamos. O problema
é que nas últimas décadas os cientistas têm descoberto que muitos atos que
acreditamos serem derivados de nossa vontade consciente na verdade são
comandados ou modulados pelo nosso inconsciente.
A ilusão da
vontade consciente é tão forte que muitos têm dificuldade em aceitar que atos
inconscientes existem. Para convencer os incrédulos, nada melhor que examinar
os mais simples. Nosso coração bate regulado por um mecanismo sobre o qual
praticamente não temos controle consciente. O mesmo ocorre com o movimento dos
intestinos. Outros atos são controlados pelo inconsciente durante a maior parte
do tempo, mas podemos assumir seu controle. É o caso do ato de respirar.
Em outros
casos – por exemplo, quando dirigimos um carro por um percurso familiar -,
abdicamos do controle consciente e de repente percebemos que já chegamos. O
mesmo ocorre com o ato de andar. Já tentou controlar conscientemente cada
movimento de cada músculo do seu corpo enquanto anda? É praticamente
impossível. Começamos a andar e o inconsciente toma conta dos detalhes enquanto
sonhamos acordados.
A primeira
descoberta que abalou nossa ilusão de que a vontade consciente inicia nossos
atos foi o experimento que demonstrou que quando uma pessoa levanta um dedo, um
cientista que monitora seu cérebro é capaz de prever que ela vai decidir
levantar o dedo frações de segundo antes de ela fazê-lo e muito antes de o dedo
realmente se mover. Nesse caso, apesar de o cérebro ter “decidido” antes de a
decisão aparecer na consciência, o ato de levantar o dedo só ocorre depois de
essa vontade aparecer na consciência.
Nos últimos
anos, os cientistas descobriram que muitos de nossos atos são iniciados e
concluídos sem que eles apareçam na nossa consciência. O elemento que provoca o
início do ato também é inconsciente. Dezenas de experimentos demonstram que
isso ocorre. Em um deles, duas pessoas sentadas em uma mesa são instruídas a
montar dois quebra-cabeças em sequência. Os quatro quebra-cabeças, quando
montados, revelam palavras. Foi descoberto que se o quebra-cabeça montado
primeiro por uma das pessoas revelar palavras como “vitória” ou
“competitividade”, essa pessoa vai montar mais rapidamente que a outra o
segundo quebra-cabeça.
Ou seja,
mesmo sem ter decidido conscientemente aumentar a velocidade com que tenta
completar a tarefa, o inconsciente da pessoa usa a informação visual e o
significado da palavra lida no primeiro quebra-cabeça para modular seu
comportamento. A competitividade brotou diretamente do inconsciente.
Interrogadas sobre o experimento, essas pessoas não têm consciência de que
tentaram aumentar a velocidade.
Nessa mesma
linha, outros experimentos demonstram que, em um escritório, as pessoas mantêm
suas mesas mais limpas se um ligeiro odor de desinfetante (em níveis abaixo dos
percebidos conscientemente) for adicionado ao ar. Em outro estudo, pessoas eram
informadas que receberiam uma recompensa fixa em dinheiro (digamos, sempre R$
1) se apertassem um botão quando uma imagem de dinheiro aparecesse na tela.
Diferentes grupos foram submetidos a diversas imagens de dinheiro. A força com
que as pessoas apertam o botão é diretamente relacionada ao valor que aparece
na tela.
Em todos
esses casos, as pessoas agiram guiadas por estímulos vindos do inconscientes e
nunca tiveram conhecimento ou “vontade consciente” de praticar os atos. Elas
procuraram atingir um objetivo e executaram um ato sem intervenção da
consciência. Experimentos mais complexos demonstram que muitas vezes iniciamos,
executamos e terminamos atos sem jamais termos consciência do que fazemos.
Esses
experimentos têm gerado muitas discussões sobre seu significado. Eles afetam a
imagem que temos de nossos atos, da nossa liberdade de ação e do que significa
ser humano. Mas, para muitos biólogos, essas descobertas são mais uma
demonstração de que, afinal, não somos tão diferentes dos outros animais.
A maioria
dos seres vivos provavelmente não tem consciência de seus atos da mesma maneira
que acreditamos possuir. Apesar disso, agem e reagem guiados por um cérebro
capaz de captar estímulos do meio ambiente e transformá-los em ações na
ausência de consciência. Nossa mente consciente evoluiu no interior de um
desses cérebros e não deveria nos espantar que muitos dos mecanismos que
governam o comportamento de nossos ancestrais ainda governem nossos atos.
Precisamos aprender a conviver com o fato de que não passamos de animais
sofisticados e aos poucos nos libertarmos da doce ilusão de que nossos atos
dependem de nossa vontade consciente.
Fernando
Reinach é biólogo
Mais
informações: The Unconcious Will: how the pursuit of goals operates outside os
concious awareness. Science, vol. 329, pág. 47, 2010.
https://veja.abril.com.br/coluna/augusto-nunes/a-doce-ilusao-da-vontade/

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