EVOLUÇÃO
NA IDENTIFICAÇÃO DO GÊNERO FEMININO EM ESCRITAS.
SUGESTÃO DE UMA HIPÓTESE.

Desde o
início do século XX existem estudos para determinar o sexo de acordo com a
escrita. Na atualidade, o uso de algoritmos ampliou a gama de recursos à
disposição do pesquisador, todavia algumas vezes estes se depararam com
fórmulas complicadas e dificilmente compreendidas por pesquisadores não
versados em matemática. A observação do sexo na escrita se reveste de
importância para perícias grafotécnicas, em especial cartas anônimas, todavia
também é o ideal para a perfeita compreensão de como funciona o gesto gráfico e
assim determinar novas técnicas de ensino e aprimoramento a escrita,
especialmente em termos de legibilidade. É notório que existem algumas
diferenças básicas entre a escrita de meninos e meninas no início da
aprendizagem. A pressão no papel e a organização do texto são melhores nas
meninas, assim como é o deficiente desenvolvimento da escrita nos meninos, fato
que pode se tornar uma preocupação para educadores. É de conhecimento que
existem fatores cognitivos e sociais nessa discrepância, assim como a
fisiologia e psicomotricidade. Antes de tudo é por demais importante frisar que
este autor afaste qualquer tipo de interpretação determinista. Embora o
presente trabalho tenha enfoque na dimensão de gênero na escrita, outros
aspectos são por demais relevantes e não foram deixados de lado durante o
constructo do artigo. Gomes é por demais assertivo quando escreve a este
respeito: Convém lembrar que os processos de aprendizagem e desenvolvimento
envolvem tanto aspectos sociais, históricos, culturais, linguísticos, como
aspectos cognitivos e afetivos. Todos esses aspectos são processos construídos
e não são inerentes à condição étnica, de gênero ou de classe social (GOMES,
2004) – o que torna injustificável toda e qualquer atitude preconceituosa ou
discriminatória. Contudo o objetivo primordial deste trabalho é mostrar que existe um traço específico na
escrita de mulheres que praticamente não aparece nas escritas masculinas. Após
apresentar a evolução das pesquisas para determinar gênero masculino ou
feminino na escrita, é proposta uma nova abordagem que facilita a observar
imediata do gênero feminino. Esta pesquisa inédita abre um vasto campo de
possibilidades, pois introduz o
conceito de “marcador gráfico” na escrita. A mais imediata utilização está no
campo da grafotécnica para verificar cartas anônimas e falsificações. Fica
evidente que o conceito se amplia além da observação de gênero na escrita para
outros tipos de avaliações, sendo que por hipóteses seria possível até mesmo
detectar doenças mentais e físicas na escrita.
2. REVISÃO DE LEITURA
A literatura sobre os mais diversos
tipos de estudos da escrita é ampla, contudo, textos específicos sobre a
identificação de gêneros é escassa. Desde os primeiros anos do século vinte, o
tema tem sido preocupação dos grafotécnicos na identificação de documentos e
cartas anônimas. Todavia a percepção sempre foi muito mais baseada na intuição
e vivências dos especialistas do que exatamente em ciência. Outro dado que deve
ser levado em conta é que durante séculos acreditava-se que escrevemos com a
mão, fato que perdura até os dias atuais, mesmo em pessoas de alta
escolaridade. A mão é apenas um instrumento, sendo na verdade o cérebro quem
comanda a escrita. Na realidade, a escrita é uma forma de linguagem altamente
sofisticada que necessita ser treinada e aperfeiçoada por longos anos. Por mais
óbvio que possa parecer, escrevemos com o cérebro, todavia a primeira
comprovação científica disto ocorre apenas no ano de 1895 quando o psiquiatra
alemão William Preyer descreve a fisiologia da escrita como um ato cerebral. No
mesmo trabalho, é inserido os primeiros estudos experimentais que focam a
pressão exercida pela mão e a velocidade da escrita. (PREYER, 1895). O autor não chega a diferenciar dois
parâmetros importantes que são utilizados atualmente: a pressão, como força que
o material escrevente faz sobre o papel; e a tensão, força que os dedos da mão
imprimem no objeto utilizado para escrever. Estes dois parâmetros são
indicativos da tensão interna do escritor e influem de forma decisiva na forma
e ritmo na escrita. Segundo estes estudos, a escrita masculina é caracterizada
por fazer com que a velocidade aumente com a pressão e a escrita feminina pelo
fato de que a velocidade aumenta à medida que a pressão diminui. (PREYER,
1895). Aqui existe uma clara diferenciação
de gênero na escrita, contudo isto nem sempre é verdadeiro, pois existem
escritas masculinas e femininas que fogem totalmente deste padrão.
A possibilidade de que o gênero
pudesse ser determinado a partir da escrita foi negada por Michon (MICHON, 1872),
embora Crépieux-Jamin, 1872 afirmasse que este tipo de avaliação era
perfeitamente possível. Em junho de 1903, Alfred Binet apresentou suas
primeiras pesquisas sobre a determinação de gênero por meio da escrita. A
investigação teve apoio do mais famoso especialista em grafologia da época,
Jules Crépieux-Jamin. No estudo de cem grafismos, Jamin e colaboradores
chegaram a acertos de 75%, 78,8%, uma proporção bem acima do acaso (50%). (BINET, 1903) Os resultados também mostraram que os
especialistas (grafólogos) eram falíveis. Os acertos dos não especialistas nas
mesmas cem observações, chegaram a 73% para os professores de escolas e 63%
para meninas de 18 anos sem educação escolar. (BINET, 1903) Convém lembrar que na mesma pesquisa, em relação à identificação por
idade, os dados mostram que Crépieux-Jamin cometeu erros de até 5 anos em
média, enquanto os não especialistas apresentaram altas discrepâncias de 17 e 18 anos mais
velhos ou mais jovens do que a idade real do escritor. (BINET, 1903) Temos que
considerar que no momento citado a grafologia era uma ciência jovem, sem
pesquisas e estudos de grande monta.
Questionado quanto aos critérios
utilizados para a determinação do sexo na escrita, Crépieux-Jamin, cujos índice
de acerto foi 78,8%, enumerou várias características gráficas encontradas nas
escritas dos homens: limpeza, simplicidade, firmeza da letra. (SERGUEÏ et al,
2016) Enquanto nas mulheres foram observadas características como:
complicações, exageros, traços insignificantes e incoerências, de além
superelevações nas letras "r" e "s". (SERGUEÏ et al, 2016) Entretanto, os critérios
utilizados pelos especialistas para determinar a diferença de gênero não foram
satisfatórios. A conclusão de Binet foi bastante suscinta, relatando que o
gênero pode ser revelado pela escrita e que os especialistas (grafólogos) obtém
resultados acima dos leigos, todavia, estes também alcançam acertos acima de
50%. (SERGUEÏ et al, 2016)
Florence L. Goodenough, em artigo
publicado no ano de 1945, demonstra que as pessoas são mais aptas do que realmente se acham capazes
em avaliar o gênero na escrita. As conclusões do estudo vão de encontro aos
estudos de Binet e Jamin (1903), todavia tem-se que considerar que a questão
social de gênero discutida atualmente não foi levada em conta.
Pesquisas mais recentes, como Burr,
2002, analisam a identificação de gênero na escrita de adultos. As avaliações
das escritas realizadas pelos participantes tiveram como base características
estilísticas para diferenciar os gêneros. Assim, a escrita feminina foi
rotulada com adjetivos como "grande", "arredondada" e
"cuidadosa” e as masculinas jugadas como "pontiagudas",
"inclinadas", "confiantes" e "apressadas”. (BURR,
2002) Quando não era indicado aos participantes o sexo do escritor, estes
julgaram que as escritas masculinas e femininas eram significativamente
diferentes. Nestes casos as escritas femininas foram rotuladas como
"cuidadosas", "limpas" e "regulares/consistentes"
e as masculinas como "apressadas", "irregulares" e
"desarrumadas/desalinhados". (BURR, 2002) Os termos utilizados são altamente imprecisos
e vagos. Os resultados sugerem que os avaliadores podem ter sido influenciados
por estereótipos de gênero, levando a erros em alguns de seus julgamentos. Na
mesma linha das pesquisas anteriores, o referido estudo assinala que a precisão
nas avaliações era significativamente maior do que o acaso (50%) e as doses de
acertos eram aprimoradas com a prática. (BURR, 2002)
Os estudos conduzidos por Hartley,
1991 mostram que realmente existem diferenças substanciais entre a escrita de
meninos e meninas e que elas são claramente reconhecidas por crianças de sete a
oito anos de idade. Porém, tanto professores como os alunos ainda trabalham com
estereótipos culturais populares. Neste, como nos demais estudos, fica
demonstrado de forma bastante objetiva a facilidade com que o leigo consegue acertos acima da média
nas avaliações, assim como os acertos dos especialistas são sempre maiores.
A abordagem neurobiológica utilizada
por Filippos Vlachos & Fotini Bonoti (FILIPPOS et al, 2006) mostra as
diferenças da idade e do sexo no desempenho da escrita infantil. A escrita
espontânea de duzentas e dez crianças de 7 a 12 anos foram avaliadas mediante cópia e escrita de
ditados. Utilizou-se para tal a escala de escrita da bateria neuropsicológica
de Luria - Nebraska. Foi observada que a tendência a melhor proficiência na
escrita na infância está relacionada ao sexo; os meninos tiveram desempenho
muito pobre em relação as meninas. A psicomotricidade, em termos de escrita,
das meninas é muito mais aprimorada que a dos meninos. (FILIPPOS e outros,
2006) Cabe lembrar que para o antropólogo inglês Desmond Morris, 2005, a força
das mãos masculinas é, em média, duas vezes maior que a feminina. Ao longo da
evolução humana a força foi atingida opondo-se o polegar aos demais dedos e a
precisão apenas as pontas de dois dedos. (MORRIS, 2005) Neste caso, por
diversos fatores, a precisão da mão feminina é imbatível, inclusive por fatores
hormonais que dão mais flexibilidade as juntas das mãos femininas. Desta forma,
a escrita das meninas é muito mais precisa que dos meninos. (MORRIS, 2005)
A preocupação em relação ao progresso
relativamente baixo no desenvolvimento da escrita dos meninos é um fator
preocupante na educação em todo o mundo, em especial no Brasil, principalmente
pelos mais diversos tipos de disparidades que são peculiares a um país dimensão
continental. Fatores cognitivos e sociais são propostos como possíveis relatos
dessas discrepâncias. Estudo realizados (ADAMS e outros, 2019) examinaram as diferenças
nas habilidades cognitivas e como a escrita ou as habilidades de processamento
fonológico poderiam explicar as diferenças de gênero na escrita inicial.
No Reino Unido, o aumento dos
padrões na escrita infantil é uma prioridade educacional atual, todavia existe
a aparente resistência dos meninos aos esforços para melhorar suas habilidades
de escrita, sendo uma preocupação particular das autoridades daquele país. (ADAMS
e outros, 2019) Números recentes do Reino Unido relataram que entre 15 a 19%
menos meninos do que meninas alcançaram os padrões esperados de escrita ao
deixar as escolas primárias do país com 11 anos de idade. (ADAMS et al, 2019) Isso
é corroborado por evidências consistentes de uma vantagem feminina em várias
avaliações nacionais do desempenho da escrita (Department for Education, 2016; PERSKY,
DANE & JIN, 2003).
Alguns estudos, como Armenta, 2016,
vão mais além ao examinar as possíveis relações entre a escrita e duas formas
sociolinguísticas variáveis: (1) idade e (2) sexo do escritor. A autora cita
outros artigos que relatam a precisão na identificação de gênero na escrita.
Neste mesmo estudo é analisada a potencial correlação numérica entre a
legibilidade em escala de amostras manuscritas e a identificação dos
observadores do sexo do escritor e idade com base nos dados da pesquisa. (ARMENTA,
2016) Esse tipo de pesquisa se refere a estudos de percepções e atitudes,
marcadores e identificações linguísticas e às variações interlinguísticas. Como
em outros artigos, Amenta não deixa de frisar: “Claramente, os indivíduos podem
formar julgamentos e preconceitos baseados em fatores como sotaques,
antecedentes raciais e orientações socioculturais.” (ARMENTA, 2016)
Atualmente, novas pesquisas têm
utilizado a inteligência artificial (SAHA et al, 2018) e o aprendizado
profundo de computadores para atingir resultados extremamente positivos. No
referido estudo, os autores atingem a precisão de 91,85%.
Pesquisas com neuroimagens abordam a
questão da base neural das diferenças sexuais na escrita, uma forma única
de linguagem e comportamento motor (YANG et al, 2020). Homens e mulheres
demonstraram que utilizam diferentes regiões cerebrais de maneira específica
para escrever, ou seja, a área de Exner, e isso tem uma ligação plausível às
diferenças comportamentais de sexo na escrita.
(YANG et al, 2020)
Sugestão de uma hipótese
Ao longo dos últimos trinta anos
foram observadas, de modo empírico, cerca de vinte mil escritas dos mais
diversos tipos. Cabe realçar que o objeto desse estudo são as escritas e não as
pessoas. Assim, da mesma forma que existem marcadores linguísticos e marcadores
somáticos (ROCHE, 2020), foi levantada a hipótese de existirem marcadores
gráficos que indicariam a individualidade na escrita.
A hipótese levanta uma série de novos
questionamentos que somente serão resolvidos com pesquisas mais profundas e
protocolos mais rígidos para que se confirme a observação inicial.
Para compreender melhor o traço temos
que recorrer a fisiologia do movimento escritural. Os principais gestos são:
Adução, Abdução, Flexão, Extensão. (BATES et al, 1998). As ações articulares
ocorrem em torno de um eixo horizontal ou transversal e incluem os movimentos
de flexão e extensão. A abdução é movimento no plano
frontal onde o traço se move para longe da linha sagital (média) do corpo.
E a adução é movimento no plano frontal onde o traço se move para a esquerda. (BATES
et al, 1998).
Na flexão, o movimento do traço se
realiza no plano sagital. De cima para baixo. O traço é realizado em direção ao
corpo. Existe tensão. O traço é executado em direção do escritor, ventromedial.
(BATES et al, 1998).
Na extensão, o movimento do traço
também se realiza no plano sagital, todavia de baixo para cima. Afasta-se do
corpo. A extensão pode ocorrer quando determinados traços (letra g, por
exemplo) voltam para a posição anatômica inicial. (BATES et al, 1998). Disto resultam
diversas interpretações, este “jogo” de movimentos flexão/tensão resulta na
elasticidade do traço. É óbvio que esta percepção espaço-temporal é realizada
de acordo com a motricidade e inteligência do escritor, assim a percepção
conceitual do escritor vai ser revelada na escrita. Nos dedos temos o movimento
de flexão que é realizado pelos músculos interósseo dorsal, interósseos
palmares, lumbricais, flexor curto do dedo mínimo, flexor superficial dos dedos
e flexor profundo dos dedos (BATES e al, 1997).
Já a extensão dos dedos é realizada
pelos músculos interósseo, lumbricais e extensor dos dedos (BATES et al, 1998).
Outro movimento realizado pelos dedos é o de adução, que é executado pelos
músculos interósseos palmares. Enquanto a abdução é realizada pelos músculos
interósseos dorsais e o abdutor do dedo mínimo (DÂNGELO et al, 1997). O
complexo articular do punho e da mão mudaram radicalmente ao longo da evolução
humana. O polegar capaz de realizar a oposição é a mais importante delas. Tal
estrutura possibilitou a construção de ferramentas, da escrita, das artes. (DÂNGELO et al,
1997).
Os quatro gestos (Adução, Abdução,
Flexão, Extensão) são executadas em linhas retas. A combinação entre eles
possibilita a infinidade de novos traços. Ou seja, as curvas são provenientes
da combinação vetorial destes traços. (BATES et al, 1998).
A maior parte dos traços realizados
no ato de escrever é uma combinação complexa destas quatro formas básicas de
movimento. As formas básicas, são em teoria, mais fáceis de serem executadas,
portanto as alterações nestes traços sinalizam algumas características de motricidade
no escritor. Por exemplo: um traço vertical reto com tremores é por demais
importante para ser deixado de lado na observação gráfica. Para o perfeito
funcionamento do ato de escrever se faz necessários a correta postura ao sentar
e a perfeita maneira de segurar a instrumento escrevente.
Este traço de abdução vai influir de
maneira bastante positiva no ritmo da escrita, mas, como se sabe, embora se
conheça muito sobre o desenvolvimento de aspectos cinemáticos da escrita, pouco
se conhece sobre os dois princípios que governam a organização rítmica:
Homotetia e Isocronia. Homotetia afirma que a razão entre as durações dos
eventos motores únicos que compõem um ato motor permanece invariável e
independente da duração total do movimento. Isocronia refere-se à relação
proporcional entre a velocidade de execução do movimento e o comprimento de sua
trajetória. (PAGLIARINI et al, 2017). A adesão precoce a esses princípios sugere que uma
representação interna do ritmo da escrita está disponível antes da idade em que
a escrita é realizada automaticamente. No geral, essas descobertas sugerem que,
apesar de ser uma aquisição cultural, a escrita parece ser moldada por
restrições mais gerais no planejamento de tempo dos movimentos (PAGLIARINI et al, 2017).
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O princípio aceito nas perícias
grafotécnicas em todo o mundo é que não existem duas escritas iguais. Após
analisar dezenas de possíveis traços, foi encontrado um específico, que aparece
somente em escritas de mulheres e é extremamente raro em escritas masculinas.
Foi então utilizado para tal traço o termo marcador gráfico, que não foi
encontrado na literatura de termos de perícias. O referido traço aparece na
letra p (Anexo I), embora não seja incomum encontrá-lo em letras m e n. Nas
observações de 1.200 escritas femininas os escores atingiram 16,42% das
amostras. Já nas masculinas, de 1.100 amostras, foram observadas apenas duas
ocorrências. É importante ressaltar que os dados foram tabulados de forma
empírica e destas observações é que resulta a referida hipótese.
O traço identificado na letra p é um
típico traço de Abdução, movimento no plano frontal, da esquerda para a
direita. Em termos de escrita, é um gesto prático e direto, os gastos de
energia para o próximo traço são, de certa forma, mais econômicos. Isto é fácil
de ser observado em um traço de Adução, que parte do lado direito para o
esquerdo. Assim como a escrita ocidental tem como linha de ação da direita para
esquerda, o gesto de Adução puro e simples seria considerado regressivo e o
consumo de energia seria desnecessário. Estudo de movimentos escriturais
atualmente são comuns em todo o mundo (PLANTON et al, 2013), todavia a
explicação para cada gesto em si é praticamente inexistente.
Uma vez atingidos os dois parâmetros,
a escrita tende e ser mais rítmica, mais bem estruturada; pela a simples
observação do gesto na letra P concluímos que escrita possui os dois
parâmetros.
Poderíamos traçar várias hipóteses a
serem testadas para encontrarmos as causas deste traço ocorrer
predominantemente em mulheres, mas o objetivo do presente artigo é mostrar o
potencial que este tipo de estudo pode trazer. As escritas com este traço
marcador possui características específicas: Alto nível de legibilidade;
espaçamentos regulares e constante entre palavras; linhas e letras; ligação
entre uma letra em outra em forma de guirlandas; ausência de ligações em
ângulos entre as letras, as letras em todas as palavras são ligadas (acima de
90%); letras ovais bem executadas; grafismo estabilizado; as linhas não se
misturam; o movimento é controlado; a direção das linhas é retilínea em folhas
em branco; a pontuação é precisa, os traços são limpos e sem borrões; o texto é organizado, a pressão é constante e firme,
praticamente não existem espasmos de pressão. Desta forma o traço de abdução na
letra p se constitui um excelente marcador da escrita que desejamos ser
atingida depois de iniciado o aprendizado do modelo escolar. Existem outros pontos importantes que devem
ser considerados nas futuras pesquisas e que não foram considerados neste artigo de forma mais explícita. As
variáveis culturais e sociais que atuam no desenvolvimento da escrita feminina
ou masculina necessitam ser consideradas, especialmente tendo em vista as
gritantes diferenças existentes nas mais diversas regiões do país. Com certeza
as questões culturais e de natureza educacional modelam de forma intensa os
comportamentos e suas formas de expressão na vida social.
Várias questões não foram relegadas para segundo
plano por este autor: “Se as meninas têm melhor desempenho no aprendizado da
escrita, porque isto não se torna uma vantagem extremamente visível em termos
de sucesso nos anos posteriores, já que a escrita é uma competência social
valorizada? Poderíamos criar meios de aprimorar isto para alavancar a igualdade
de gênero em nosso país?
Aqui deixo a frase lapidar do Dr. Robert Olivaux,
Pédagogie de l'écriture et graphothérapie, Ed. Masson,1991. ”O respeito ao
outro, implica no respeito a sua escrita.”
Considerações finais
Desde as primeiras comprovações que a
escrita é um gesto cerebral (PREYER, 1895) já existia a preocupação em
identificar gêneros de forma científica na escrita. As conclusões de todas as
pesquisas são bastante objetivas, embora os métodos e sistemas variem: sim, é
possível identificar gênero na escrita. As primeiras implicações práticas estão
na verificação de cartas anônimas e perícias grafotécnicas.
Todos os estudos convergem para
vários pontos importantes: é possível identificar gêneros nas escritas; os
leigos apresentam doses de acertos acima da média; os especialistas atingem
escores acima dos leigos; a escrita das meninas é superior em qualidade a dos
meninos. Os objetivos maiores se concentram no aprimoramento da qualidade da
escrita (ADAMS et al, 2019),
tanto nos meninos como nas meninas, todavia com especial atenção aos primeiros.
O potencial existe que, ao reconhecer
as diferenças de gênero nas escritas, é possível criar métodos que possam
aprimorar, tanto o desempenho escolar como o aprimoramento do ato de escrever
em si.
4. RELEVÂNCIA E IMPACTO SOCIAL
Ao identificarmos as diferenças de
gêneros nas escritas, é possível criar métodos e sistemas que ao facilitarem o
aprendizado e aprimoramento, tanto dos meninos como das meninas, certamente vão
aperfeiçoar a evolução da capacidade escolar do aluno em vários campos. O tempo
que se gasta na tentativa de aprimorar o gesto escritural, em especial a
legibilidade, é grande e altamente desproporcional aos resultados atingidos,
sendo que muitas crianças com mais de cinco anos de alfabetização não conseguem
escrever uma frase completa. A identificação por meio de traço marcador na
letra é inédita e tem como principal característica a facilidade de ser
observada a custo financeiro quase nulo, ao contrário de métodos sofisticados
com ressonância magnética ou algoritmos. Uma vez que o traço na letra p seja
observado na escrita, a identificação de gênero é imediata. Todavia a ausência
dele não permite qualquer outro tipo de conclusão. Desta forma, como sequência
desse trabalho, está a busca de novos traços que possam aprimorar a
identificação de gênero, sendo que alguns já estão em fase adiantada. Com
certeza são necessárias maiores investigações, inclusive protocolos mais
rígidos que possam confirmar a hipótese aventada.
Convém realçar novamente que existem inúmeras
variáveis culturais, sociais e históricas que atuam na construção da escrita e
novas (variáveis), tais como computadores, tablets etc. Cabe ao pesquisador
sempre as levar em alta conta de modo a evitar quaisquer tipos de percepções e/ou
interpretações duvidosas e deterministas, que ofereçam margem à pré-conceitos.
O potencial para novas investigações
é novo e amplo. Assim como os marcadores somáticos e linguísticos existem em
grandes quantidades, aqui se aventam hipóteses de novos marcadores gráficos
serem pesquisados, tanto nas escritas masculinas quanto nas femininas, não
somente em questão de gêneros, mas também em outras áreas, como por exemplo na
medicina. Já são conhecidos os estudos de micrografias e tremores na escrita de
parkinsonianos e portadores de Alzheimer, mas não em termos de um traço
específico (marcador). Somente pesquisas mais profundas e protocolos rígidos
irão confirmar o grande potencial, da hipótese aqui traçada.
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ANEXO I